Rafael Mota Altenburg
Quem nunca viu Dom Altair
Cruzando por estas estradas
Farejando o pó das tropilhas
Ou de tropas repontadas.
Dom Altair de alma leve
E de romances com a lua
Deixando pra noite xirua
Olhar preso na imagem do nada!
Trazia visões no coração
A devanear pelas madrugadas,
Sabia segredos das estradas
E os sabores da solidão...
Criou no campo dos sonhos
Miles de bois estrelados,
E uma tropilha de gateados
Pros arreios da imaginação.
Mais pó, mais uma estrada...
Mais um dia de caminhada...
Sempre curto nas palavras
Assobiava mais uma milonga
E seguia seu rumo… sem rumo.
Um trago, um naco de fumo
Davam força e tenência,
Pra quem nem pensava em chegar...
Pois seu destino… era lugar nenhum!
A noite caía aos poucos,
E igual a outros loucos,
Entre um trago e outro
Juntava um eito de sonhos
E botava na mesma mangueira,
Pois sua imaginação da fronteira
Peleava, e sem mover o braço,
Afundava uma esquadra inteira.
O catre ao lado das cruzes
Protegido por quem partiu,
Quem sabe andarilhos iguais
Que um compadecido enterrou,
Sem saber porque o companheiro
Foi e não se despediu...
Ali… dois andarilhos
Um vivo... Um morto
Um iluminado pelo outro
E livres iguais os potros,
Donos da lua, da terra e do campo vazio.
Silêncio... Ah! O silêncio...
Quebrado apenas pelos grilos
Que puxavam um estribilho,
Pras coisas vindas do céu
Espiar a lua com seu véu,
E seu romance mais lindo.
Outra vez aquele encanto
Com tanta beleza e acalanto,
Vindo de tantas estrelas
E daquela lua “sorrindo”...
Naquela madrugada, descansou!
Somou-se uma cruz ao lado da outra
Descansou à beira da estrada
Que foi a única morada
Do loco, do andante, do Altair.
Ali uma história comum findou
Ultimo véu de imaginação
Ali se foi um andante,
Uma lua viúva chorou...
Quedou-se na noite o acalanto
Talvez prenunciando sua chegada
A lua vestiu o véu da madrugada.
Se foi milongueando só,
No compasso do seu canto,
De encontro com a tropa de estrelas
- que sua mente criou –
Pois andavam meio dispersas
Que nem sempre podia vê-las.
Fez da partida um ponto de chegada,
Da sestiada, fez um lugar pra ficar,
No seu ocaso a sua alegria,
E o seu reencontro com a amada.
Quem nunca teve rumo
Naquela hora, tinha dois
Só ele é que não entendia.
Pra alma um céu inteiro
E para a carcaça a sesmaria.
de
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