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Rafael Ferreira

‘Stão de redor do fogo,
numa prosa faceirita,
regada ao doce do vinho
num posto (do Pinheirinho).
Com relembranças bonitas,
de bocas, rendas e chitas,
das chinocas, dos caminhos.

São nessas horas de fula,
de folga e corpo leviano,
com pensares rastreadores,
que os mocitos, já senhores,
os três peonaços vaqueanos,
contam causos, desenganos,
galopeaditos de amores...

Seu Aldo fala com as mãos,
pintando o corpo de Joana
no fandango da capela.
Tão linda moça, a mais bela,
no bailar a queromana
e a trança atiçando a gana
pr’um xucro se enredar nela.

Diz ele, que aquela era,
de toda florzita guaxa
qu’esta querência pariu,
a que l’e fez desvario,
e ainda faz, ele acha,
por uma paixão buenacha,
que ao certo nunca existiu.

Conta, até meio micho,
d’uma toada de ronda,
qu’ele fez pra tal ingrata.
O carão inda maltrata,
mas sonha que o corresponda
e, num voo, a marimbonda
escute a tal serenata.
Seu Remi ri deste causo,
reavivando o foguito
com lascas de guamirim.
Emenda também, assim,
recordando, por bendito,
um amor simples, bonito,
que quase lhe deu o fim.

_ O nome era Juliana!
Diz de zoinho espremido
e apalpando o coração…
se assombrou, o redomão,
ele, por ela entretido,
viu num corcóvo fervido
bolcar de bofe no chão.

O mundo ficou pretusco
e arrodeou compassado
até voltar a ser mundo.
Com vistaço cheio, inundo,
Remi se viu acordado,
por um beijo perfumado
deixou de ser um defunto.

A tal mocita, assustada,
pensou ter enviuvado
mesmo sem ver casamento…
E o Remi, diz, em questionamento,
se a dor que traz “nos costado”
foi do tombo ou do pecado,
do amor que deixou ao vento.

_ Por isso tu anda cacunda!
diz o Neno, e arremanga
“os punho” d’uma bombacha.
Lembrando a sobra de graxa
de uma antiga camanga,
qu’ele encontrava na sanga,
quarando roupa, fortacha.
Se lembra até de um dia,
que ele levou nos arreio
uma gaita botonera.
E explica de tal maneira,
entre trejeito e volteio,
quão lindo era o floreio,
que ele fez pra lavadeira.

Risonhamente soluça,
lembra a bolsa de desejo,
lotada de gostosura:
pinhão, laranja madura,
a goiabada com queijo,
e a doçura que era o beijo
com restos de rapadura.

_ Calcule!
Numa gaitada,
fala o Aldo, enquanto livra
o palherito da boca…

O Remi,
fazendo conta,
mostra nos dedos a idade,
dizendo não ter cabresto...

Tio Neno,
o mesmo contexto,
diz que rolou feito pedra
sem se amasiar por engano...

Romanescos, orelhanos,
‘stão de redor do fogo
vendo que o tempo correu.
Mas cada um guarda o seu
amor, numa despedida...
Quem não amou nesta vida,
por certo nunca viveu!

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