Wagner Hörle da Rosa
Um jasmineiro sombreando
A ilusão duma primavera,
Aromando as lembranças
Da plenitude que era;
Tudo que o tempo reponta
E é triste se dar por conta
De como nasce uma tapera.
Entordilhou-se na espera
O Nico - velho campeiro -
Arrastando alpargatas
No chão varrido do terreiro;
Já não mais calçava espora
E ia compondo suas horas
Nas preces de um palheiro.
Um dia ficou solito,
Que a Dona Eva morreu,
Parceira de tantos anos
Que a vida do amor lhe deu;
O mundo se parou chico
Se parou triste o Seu Nico
Parou o mundo tão seu.
As horas custam passar
Sozinho aqui nesses fundos
Visita - de vez em quando -
Os filhos andam no mundo;
E fica se perguntando
Vendo os dias cruzando
Quem vai cuidar desses fundos
Que tanto suor derramou
Para erguer o seu ranchinho
Ainda moço, com sua Eva,
De barro, amor e carinho;
Oiga-lê que sorte ingrata
Por onde arrasta alpargatas
Sempre se vê sozinho...
Não vê mais flor, seus espinhos
De corpo e alma judiada,
O velho moço domeiro
Também de tropa e estrada;
Que viu no tempo um carancho
No jasmineiro e no rancho
Remoendo mágoas passadas.
Um dia, então correu a notícia
Que o velho Nico morreu
Talvez de tanto desgosto
Frente ao mundo tão seu;
"O Nico da velha Eva,
Campeiro aqui dessas léguas
Que foi pra perto de Deus".
Um jasmineiro florido
Sombreando rancho e terreiro
Vendo o tempo cruzar
E criar pasto o potreiro;
Não pisam rastros os pingos
Não visitam nos domingos
Não fumaceia o palheiro.
Cruzam os anos, e quem ficou
Não deu valor que devia,
Aqueles que quando crianças
Por ali tanto corriam;
Logo deram as costas
Trazendo então a resposta
Pra pergunta que o Nico fazia:
Quem vai cuidar desses fundos?
La pucha! Quanta tristeza!
O mato ganhou o terreiro
Foi se apagando a beleza;
Com a partida do seu dono
Uma catedral do abandono
Já era sim, com certeza.
Mais uns anos se passaram
Só um assombro de alegria
O carancho que é o tempo
Mostrando na manhã fria;
Que o que se constrói com amor
E não se enxerga o valor
Vira em ruína um dia.
Um jasmineiro aromando
Com tempos de primavera
Um rancho de ilusão
De tudo aquilo que era;
O que a memória reponta
É triste…É triste se dar por conta
De como nasce uma tapera.
de
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