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Érico Rodrigo Padilha

Eu sou de um tempo, Patrício,
Que foi meu tempo e passou...

Já fui de campo e estrada,
De escaramuças e guerras,
Dos embates de campanha,
Das correrias de eguada,
De romanescas patriadas
Guardadas dentro do peito
E na alma deste gaúcho.

Era tudo campo aberto...
As estâncias pegavam umas nas outras
Sem cercas e nem divisas,
Potrada alçada e orelhana,
Eguada xucra e aragana
Correndo livre nos campos
Desta querência reiuna.

Quantas volteadas de potro,
Quanta corrida macota
Nesses fundões de campanha...

No veranico de maio, quase no início do inverno,
Que o tempito anda mais fresco para lidar com a eguada,
Se reunia a peonada n’algum rincão do meu pago:
-Campeiros e domadores, torenas e boleadores,
Muito gaúcho afamado, chegando de todo o lado
Pra agarrar o bicharedo, que andava gordo e pesado,
Pastando manso e aguaxado na beira de algum açude,
Na sombra de um caponete, n’alguma várzea encharcada...

Adelgaçavam seus fletes,
Com água à meia costela na beirada de um lagoão.
Os cascos bem aparados, agarradeiras bem cavadas,
Cola curta, toso baixo e a gauchada em pelo,
Tudo em mangas de camisa, faca e bolas na cintura,
Boleadeiras de respeito, retovadas a preceito
Por mãos sovadas de calos no serviço das estâncias.

Quando a peonada já andava toda a cavalo,
Se espalhavam nas encostas, coxilhões e rinconadas
Pra espantar a cavalhada pelos fundões destes campos...

...Em descida de canhada, rufando numa restinga,
Os lotes de eguariços se encontravam, entreveravam,
Os colhudos relinchavam pastorejando as manadas,
E os campeiros se achegando, a grito, a laço e a cachorro,
E as “três-marias” cruzando na paleta dos matungos,
Que disparavam bufando, fazendo tremer a terra
Num galopão estendido se arrastando campo afora...

E a cada tiro de bola era um clinudo rodado,
E o índio apeava, maneava e marcava o flete,
Que depois eram apartados por sua marca e sinal
Que a gauchada fazia com um talho por trás da orelha,
Por onde o sangue escorria e se empastava nas clinas,
E qualquer que fosse o pingo, velhaco ou caborteiro,
A gente quebrava o cacho e tocava por sinuelo.

Quando era para ”limpeza”,
A indiada empurrava a eguada num apertado qualquer,
N’alguma sanga bem funda, banhadal ou sumidouro,
E a bagualada enredava e afundava e morria,
Tocada pelas pechadas dos que se vinham atrás.

Depois, tocava por diante, cada qual com sua tropilha,
A eterna sina andarilha de andar cruzando coxilhas,
Às voltas com a cavalhada nas recorridas de campo...

Eu corri mundo, Patrício, andejei por mil querências,
Quantas vezes a cavalo, cruzando várzeas, rincões,
Boiada gorda na estrada, compromisso com a charqueada,
Do senhorio das estâncias.

Já gastei poncho e sombrero pelas estradas da vida,
Em tropas e comitivas cruzando campo e rio cheio,
Laçando boi nos rodeios e ajudando nas esquilas,
Gastando tudo nas vilas, no truco e nas carreiras,
Andei metido em peleias pelos bolichos do pago,
E andei curando as feridas, nos braços de alguma china.

Quantas vezes a cavalo, empunhando adaga e lança,
Em caudilhescos combates, por guerras que se formavam,
Manchando de sangue o pampa, tombando nobres gaúchos
Que peleavam simplesmente por um Rio Grande melhor.

Quantas vezes a cavalo, vencendo mato e picadas,
Cruzando noites escuras n’algum respingo de lua,
E o minuano zunindo, batendo seco na cara,
Fazendo pouco dos tauras que honravam a cor do lenço,
seguindo seus comandantes por este Rio Grande adentro.
Também fui maula, Patrício, me envergonha dizer isto:
- Pois nunca confiei em Cristo nem tão pouco em religião,
Minhas armas, meu cavalo, eram as leis desta terra,
Homens se forjam na guerra com as bênçãos de um capitão.

Quanta saudade, Patrício,
Quantos recuerdos de um tempo
Que foi meu tempo e passou...

Homem de campo e estrada,
Que há muito cruzou fronteiras,
Forjando a alma guerreira
E o amor por este pago.

Trago recuerdos guardados
E um memorial sensitivo,
Saudades de um tempo antigo
De coragem e consciência,
Genuíno amor à querência
Em tempos de paz ou guerra,
Genuíno amor pela terra
Por honra e descendência!

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De Saudades e Recuerdos

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