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Matheus Costa

Que destino, moça bela, 
Ter nascido Bem-Te-Vi 
Se meu canto - que era livre 
É prisioneiro de ti... 
E a melodia que escutas 
Confesso, eu não escolhi! 

Logo que a primeira flor 
No campo aberto acordava 
Eu pousei junto à janela 
Do quarto que descansavas... 
Sem intenção de romances 
Somente de asas cansadas. 

Cantei alto, erguendo o bico 
Como se fosse o bastante 
Eu era maior que o mundo 
Mas bem pequeno no instante... 
Em que vi, entre a janela, 
Teu tão singelo semblante. 

Me fiz silêncio contido 
E mesmo de peito inchado 
Já não era mais o mesmo 
De algum cantar afinado... 
Os acordes do meu peito 
Todos restaram calados. 

Que destino, moça bela, 
Ter nascido Bem-Te-Vi, 
Pois se em silêncio me ponho 
Nada posso te pedir... 
E só conquisto o que quero 
Se meu cantar existir. 

Cuidando, de jeito quieto, 
Na borda da mesma fresta 
Ouvi patas em atropelo 
Como que em dita seresta. 
Feito alguém que traz surpresas 
Sem nem avisar da festa. 

Um cruzador bem pilchado 
Numa rosilha gateada, 
Que em frente ao mesmo rancho 
Chega ao meu lado e esbarra... 
Trazendo junto às encilhas 
Bem atada uma guitarra. 

Apeiou, de riso largo 
Trouxe a guitarra nas mãos 
Num metro diante à janela 
Cercado pela amplidão... 
Dessa vez, meu assovio 
Não seria mais canção! 

Uma milonga serena 
Foi bem mais que serenata 
Pra moça bela surgir 
Num terno olhar de prata... 
Pois pra quem canta em silêncio 
A sorte é bem mais ingrata. 

Em cada verso entoado 
O meu sonho se acabava 
Por ver que o tal domador 
- Este que há pouco chegava... 
Te encantou bem mais que o canto 
De quem tanto te esperava. 

Bordoneios de conquista 
Ponteios de um só desejo 
Nesta minha solidão 
São os assombros que vejo... 
Do medo que a moça bela 
Oferte ao andante um beijo. 

Que destino, moça bela, 
Ter nascido Bem-Te-Vi 
Se mesmo n’outro rincão 
Eu sempre cantei pra ti... 
Morrer de saudade é certo 
Errado é morrer aqui... 

Aqui na janela grande 
Onde assoviei nas partidas 
E nas manhãs te contava 
Tanto e tão pouco da vida... 
Restando agora ser noite 
Num só voo de despedida. 

Agora só vejo longe 
Teu ranchito bem erguido 
Com uma rosilha atada 
Num angico florescido... 
E um gaúcho cantador 
Que é dono dos teus ouvidos. 

Eu segui assoviando ao tempo 
Nos rumos que percorri 
Enciumado de um poema 
Que nunca cantei pra ti... 
Que destino, moça bela, 
Ter nascido Bem-Te-Vi!

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Romance do Assoviador

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