Maximiliano Alves de Moraes
Não sei se foi de saída
Lá na barranca da sanga
Ou na boca da picada
Onde o zaino se assombrara
De um revoo de pelinchos.
Talvez, fosse lá na estrada,
Onde o trote já era firme
Na direção do bolicho!
No bolicho do povoado
Eu apeei do zaino negro
E minha mala de garupa
Não estava entre os pelegos!
E o que havia dentro dela
Não estava mais comigo.
Quem sentiu a dor da perda
Vai entender o que digo!
Numa mala de garupa
Se carrega palha, fumo,
Roupas e avios de mate.
Até os forros do catre
E outras coisas de consumo.
Mas a minha era repleta
Dos meus escritos de poeta,
Versos simples e sentidos.
Minha mala de garupa
Carregava na verdade
O resumo do que sou,
A minha identidade.
Quem sentiu a dor da perda
Vai entender o que digo!
Voltei pelo mesmo rastro,
Revisei sangas e pasto,
Fui à boca da picada,
Trilhei a senda da estrada.
Cansei o zaino buerana!
Não encontrei minha mala!
Voltei de pala no braço,
Aba caída nos olhos,
Alma faltando um pedaço!
Quando se perde um pertence
Se roga benevolência
Daquele que o encontrou.
Se pensa logo na perda
Daquilo que se criou.
Mal comparando, é um filho
Que nunca mais abraçou!
Quem encontrou os meus versos,
Pra procurar pelo dono
Não teria dificuldade,
Pois quem lesse três ou quatro
Encontraria no ato
A minha identidade!
Uns que falavam de domas,
Outros de penas e dor,
De carreteadas e tropas,
Muitos falando de amor!
E noticiei pelo pago,
E prometi recompensa,
E fiz promessa divina.
Os meus versos, minha sina
E meus sonhos de criança.
Um que guardo na lembrança
É o que fiz pra minha china!
Recordo de um que falava
De um negro cego e ginete,
Outro por título “Brete”,
Metáfora da cidade.
Versos falando verdades,
Buscando um mundo melhor.
Que pena, não sei de cor,
Um que o tema era a saudade!
Busquei refazer meus versos,
Procurei as mesmas rimas,
E dos confins da alma
Fui tirar inspiração.
Ao som de bordões e primas
Deste meu pinho chorão!
Mas não, não houve jeito,
O meu peito é só pesar,
Me dói apenas pensar
Perder parte de minha vida.
Aquela mala perdida
Levou dentro muitos sonhos,
Rabiscos na mão de outros,
Mas sonhos junto comigo.
Quem sentiu a dor da perda
Vai entender o que digo!
E ao retornar à estrada
No zaino, em marcha batida,
Sem meu motivo de vida,
Os meus sentidos poemas,
Eu vou saboreando a pena
De uma mala perdida!
E a quem estiver com ela
Eu peço com a emoção
De um poeta que vos fala
Em palavreado disperso.
Me ouçam com o coração
E podem ficar com a mala,
Mas devolvam os meus versos!
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