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José Luiz flores Moró

No meio de um mate e outro
Remonto as sobras de mim
Que se perderam a lo largo
Quando a vida me quedou
Em três pontos de reticências
No agouro triste de um fim!

Sorvo na espuma do mate
As corredeiras de sangas
Com caroços de pitangas
Que o vento afogou no leito...
Nelas banho alguns pecados
Que a louca história da vida
Teceu em noites compridas
De porres maulas, bisonhos...
Por isso, nessas tragadas,
Bebo águas quentes, jujadas,
Que também lavam meus sonhos!

Quando engulo a seiva verde,
Replanto dentro de mim
O antigo piazito maleva
Que caçava passarinhos
Nas arapucas da estância
E de inocente inconstância,
Nos laços largos de piola,
Prendia em mesma gaiola
Todos os conflitos da infância!

A erva, quando virada,
Encobre campos desertos
De searas ressequidas
Que não germinam sementes
Nem podem se recriar...
Na alma carbonizada
De coivaras, devastada,
Replanto as safras de um nada
Que nunca pude guardar!

No meio de um mate e outro
Componho mil melodias
Que um velho violão seis cordas
Tenta impor aos meus sentidos
Com prelúdios gauchescos
Que hoje não existem mais...
Assim trago para o meu canto
Toda a sonata e o encanto
Do canto dos ancestrais!

O mate verde espumado
Cavalga patas e rumos
De um bagual xucro e aporreado
Que nas domas do passado
Me equilibrava no lombo
E que, nas ancas delgadas,
Pelo rude das jornadas,
Ensinou-me a lei dos tombos!

Quando a erva, então, se esbruga
Mostra o retrato da alma
Caindo no precipício
De um poço que não tem fundo,
Numa avalanche de erros
Que fazem o meu próprio enterro
Nas covas rasas do mundo!

Nesse mate, quando encilho,
Renovo os rumos dos sonhos
E coloco no presente
Aquilo que antigamente
Era melhor que o agora
E monto, no lombo da fantasia,
Os arreios de uma utopia
Que se perdeu campo afora!

No meio de um mate e outro
Sou mera reminiscência
De um pago quase apagado
Pelos confins da memória
E que se avulta em minha mente...
No mate velho e lavado,
Sinto que as mãos do passado
Vem afagar meu presente!

Na cuia eu agarro as curvas
De quem tive em meus pelegos
E, por descuido e imprudência,
Desamor ou incompetência,
Deixei que ganhasse o mundo...
No esbrugo que cai da taipa
Pro assolamento da água,
Sorvo um rio seco de mágoas
Que o bojo guardou no fundo!

Na bomba quente e domada
Remexo dores e abismos
Que a vida marcou a ferros
No lombo de minha alma...
Assim, como um mate azedo,
Sinto o amargor dos segredos
Que me legaram alguns traumas!

No bocal quente da bomba
Exorcizo meus infernos
E alguns diabos malfeitores
Que habitam meus infinitos
E estancam pelos confins
Dos rios de dentro de mim,
Todo o furor dos meus gritos!

No campo verde da erva
Rebusco alguns peleadores
Que lutam constantemente
Nos aléns dos meus mistérios,
Fazendo o taura gaudério
Um soldado ou um general...
Pra cada gole do mate
Há um distinto combate
Em que o bem luta como mal!

No espaço entro as tragadas
Engulo a voz de silêncio
No olhar que busca horizontes
Pelas lonjuras do pampa
E o mar bravo que se estampa
Nas ondas verdes da erva
Faz marés e ressacadas
Nas praias das madrugada
Que a minha aurora conserva!

Por isso entre um mate e outro
Sigo bebendo manhãs
E entre verdes picumãs
Eu sorvo as sobras de mim.
Descobrindo que as referências
Embora a mesma aparência
São pedaços da querência
Em três pontos que não tem fim!

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No Meio de um Mate e Outro

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