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Joseti Gomes

A mão de pegar na pena,
traçar caminhos de tinta,
a mão de inventar palavras,
do anjo, cortou as asas,
da boca, calou o grito…

……………………...

Maria Rosa, “Rosinha”,
perfume de maçanilha
nos ruivos cachos de seda,
olhar azul de céu claro
e pele alva manchada
das ferrugens desenhadas
pelas mãos da mãe de Deus.

Rosinha, uma criança,
caiu nas garras afiadas
de um inventor de palavras
que nasceu sem coração...
Botas bem enceradas,
camisa branca, bombacha,
guaiaca cheia de letras
e o dom de ganhar prestígio
diante da multidão...

Rosinha saiu afoita
pelo campo, em disparada.
Rosto miúdo, corada,
chapéu de palha e sorriso,
sol grande a queimar a tarde
na sexta-feira minguante
de um fim de mês tão minguado.
Par de sandálias pobres,
pernas finas, dedos magros,
estrada de poeira e vento…







“Trouxe um recado do pai…”
Não fosse o gole de água,
mais o olhar curioso
espichado lá pra dentro,
Rosinha, uma criança,
continuaria criança
e jamais carregaria
cicatrizes de tormentas…

Imagens santas no altar,
livros, papéis, brinquedos,
certo carinho nos dedos,
certa ternura no olhar.
Rosinha pouco entendeu...
O inventor de palavras
roubou, sem qualquer piedade,
a pureza em tenra idade,
prum verso que ninguém leu.

………………………………….

O sal que encharca lençóis,
enruga a pele, mancha o rosto,
desbota paredes e retratos.
A dor da carne ferida
se estende por toda a vida,
endurece corpo e alma
na rudeza desses atos.

Alguns sequer se dão conta
das armadilhas forjadas
em atalhos de imensidão.
Por vezes, sem direção,
caem nas redes, viram caça
desses que fazem fumaça
para atrair inocentes
no mais horrendo dos crimes.

São crianças! São meninas!
São filhos! São inocentes!
Até quando, minha gente?
Até quando, ignorar?
Elas não sabem gritar,
são Flores de Maçanilha.









Entre os senhores “distintos”,
inventores de palavras,
existem muitos covardes
discursando pra enganar…
Botando a culpa num “João”,
que não nasceu para a lida,
botando a culpa num “Chico”,
que pouco sabe falar.

Estes senhores das letras,
das palavras inventadas,
habitam encruzilhadas,
disfarçam o tom da voz.
Convivem juntos de nós
que nos dizemos do bem
com nossos filhos reféns,
mas fazendo vistas grossas.

Julgamos e condenamos
em diversas situações…
Futebol ou religiões,
política em redes sociais,
na defesa de animais
ou na escolha de cantores.
E os verdadeiros valores?

Pode ser que a consciência,
de mãos dadas co’a justiça,
consiga mudar a cena
desse quadro tão cruel.
Que meninas e meninos
sejam somente crianças
e que as asas, desses anjos,
não se cortem nunca mais.
Que todos possam ter voz!

São Flores de Maçanilha!
São nossos filhos e filhas!
Sejamos, de fato, pais!

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