Matheus Marchezan Bauer
I
Ali, permaneceu, arrinconado!
Convalescendo imóvel, carcomido,
esse recau que, ao tempo envelhecido,
a ausência sentenciou ficar parado.
Ali, permaneceu, inconformado!
Buscou, junto ao galpão, algum sentido
por não ser mais o arreio preferido
pra encilha do seu dono e os seus mandados.
Por curto não servia mais pra lida,
tornava mais custosa a recorrida
e coube a ele só o olhar fraterno…
Embora fosse ruim com despedidas
restou-lhe compreender - isso é da vida -
não há amor algum que seja eterno.
II
No cavalete a nostalgia evade,
mas há de despertar de um sono, lento,
do qual vivia só e há muito tempo
nas invernadas, cinzas, da saudade.
No cavalete, agora, uma verdade
já ressuscita com o próprio vento,
pois chega no galpão, de olhar atento,
um guri que observa a novidade.
O pai ajusta o estribo, emocionado,
e ergue o filho ao lombo do gateado,
enquanto prende a lágrima no olhar…
O arreio não traz olhos marejados
por isso vai cinchar firme, entonado,
pro suor ser sua forma de chorar!
III
Mas no futuro, em derradeira vez,
irá pro campo em terna despedida
e encontrará, no cavalete, a vida
tornando-o inerte e sem função!
Talvez algum bisneto, em sábia lucidez,
quiçá terá a alma comovida
e levará à casa sucedida
das gerações que esse recau se fez
um pago, andante, pela mesma estância
rememorando o pátio e as distâncias,
as invernadas e até o galpão…
Enfim a pátria de duas infâncias
há de ficar, em outra circunstância,
no cavalete, por decoração!
de
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