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Mário Terres e Luciano Salerno

O cheiro do espinilho esvoaça...
Quem avisa é a fina fumaça
Desenhando no ar personagens
Criando ancestrais imagens
Junto ao pai-de-fogo aceso,
na rotina rural “mañanera”...
São postais de meu tempo
De uma infância alvissareira.

Nos campos vastos das relembranças
Há tantas de uma antiga criança,
Que, de intensas, esvaem o coração...
Um rádio chiando por fora do ponto,
Um avô que acordou “muy cedito”
E em seu banquinho ao pé do fogão
Espera um neto já de mate pronto.

E assim, quando me paro solito
No rancho com olhar no infinito
Reculuto a eterna sabedoria
Dos ancestrais, com fidalguia,
Para levar aos meus, o campo,
A honra, a simplicidade da vida,
A mão estendida e o terrunho canto.

Recordo da estrada...
Depois da curva da picada
Dispara em alerta um quero-quero.
Eu chegando no seu rancho fraterno
E ali, por dias fazer querência em
Lida de campo, mangueira e galpão
Eu, um piá querendo ser campeiro,
Ele, “senhor” por inteiro, em seu alazão.

Em seus olhos, eu via os sonhos,
Nas suas mãos, calejadas e rudes,
A ação do tempo que ilude
Emoldurado na pele sulcada,
Mas quando elas se uniam
E me afagavam as melenas
Acompanhadas de prosas compridas
Sentia o afago da vida
Junto às suas ânsias morenas.

Suas palavras escreviam textos,
Que nem eu nem mesmo o tempo
Poderíamos sequer imaginar
Que estava a desenhar
Em um guri de alma inquieta
A estampa de um poeta
Que verseja aos borbotões
O amor pelo seu lugar.

Das coisas do campo...
Contava de tranças e tentos
De apartes e castração.
Falava em curar bicheira, domar cavalo,
Parar rodeio, botar pealo...
E eu, atônito, naquela imensidão
Me embriagava nas histórias
Viajava dentro das memórias
E me alojava em seu coração.

Do mate antes dos galos,
Um costilhar que engraxava o fogo,
Um freio que trancava o jogo,
As encilhas do cavalete pro lombo
E quem nunca contou tombo
Não viveu sina campeira,
Porque a espora cortadeira
Nem sempre aguenta o tirão...
E leva do céu ao chão
Numa olada matreira.

De meu avô, tenho esse retrato...
Campeiro de cerne e essência,
Um artesão e mestre guasqueiro,
Que no findar da existência
Se foi pra cidade ser João Barreiro.
Lá, alambrava cercas estiradas em ternura
Como quem estende na pampa moirões.
Espichava arames unindo corações
Com fios de esperança e candura.

A tropilha rumo à invernada
Campereando um sinuelo de alegrias
Cada aurora se faz campo em nostalgia
Campeando o ontem a cruzar a cancela;
Ainda vejo sua imagem na janela
E passo a entender essa linha finita
Que se impõe tempo, pra determinar o fim;
Dele, renascerá em mim
O respeito e o sentido de querência,
Pois me entregou a essência
De terra, barro e capim.

Sua voz...
Sua voz em noite de ronda
Ressonga ao pé do borralho
Com a força de pajés charruas
Claros como as noites de lua
Límpidos como a água que chia
Em sussurros de nostalgia
Na voz de sua alma andeja
Até o quero-quero se cala
Pra escutar a sua fala
De onde quer que ele esteja.

“Me devolve com a direita...
Pois foi com a direita que te servi!”
Sua voz e alma vivas ainda aqui...
Avô farrapo e sentinela,
General sem guarnição,
Lanceiro de pé no chão...
O vejo em cada gole de amargo,
Pois galopa nas minhas veias
O seu gen e aprendizado...
Tudo que vivo a cada dia no meu pago!

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