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Ronaldo Cupertino de Moraes

Ermínia Hernandez e Silva
gerou Opalina Silva y Goes,
que gerou Lindaura Goes de Matos,
que gerou Mariana Matos Rey,
que gerou Eulália Rey Alves,
que gerou Santa Alves Aragon...

Carregaram-se ao ventre umas às outras,
enquanto perdiam seus nomes pelo tempo.
Foram tecelãs, fiadeiras, cozinheiras.
Fizeram pães, cerzidos e famílias.
Frustaram desejos, anseios e sonhos,
tudo porque queriam ser:
esteios, arrimos, varas verdes,
dobrando sem quebrar...

Duras penas, duras penas...
Ermínia, Opalina, Lindaura.
Duras penas, duras penas...

Fizeram fogo em seus fogões antigos,
apagaram com a mesma pressa
os seus fogos escondidos,
disseram adeus para sempre
a seus quereres perdidos...
Dançaram a dança dos homens,
numa roda que as consome,
amando heróis e bandidos...

Duras penas, duras penas...
Mariana, Eulália, Santa.
Duras penas, duras penas...

Parideiras, pacifistas,
olhares subtraídos,
gritos trancados na boca
e temores escondidos.

De onde virá tanta força,
tantas palavras amenas,
tanto sangue derramado,
duras penas, duras penas...

Santa Alves Aragon,
de lindo nome perdido,
também se deu a um marido,
também selou sua vida
alçando um voo cativo
como um pássaro ferido.

Deu ao mundo suas filhas,
como se lançasse flechas
ao encontro do inimigo.

Armou a redoma em pelegos,
protegeu-as dos perigos,
amamentou as boquinhas,
defendeu-as do Minuano,
fez com o corpo, um abrigo...

Ermínia, Opalina, Lindauara.
Mariana, Eulália, Santa.

Cada qual com seu caminho,
carregando suas correntes,
arrastando seus grilhões,
afastando seus espinhos,
formando seus batalhões,
marchando prá guerra muda
num exército de milhões...

Mulheres, fortes mulheres,
que por calar, foram ouvidas.
muitas perguntas no ar
que não foram respondidas.

Caladas nossas mulheres,
pela força de seus homens,
não puderam exigir
o seu tempo de mulher,
o tempo de conquistar
as feras que lhes consomem...

Criaram seus deuses íntimos,
andróginos, sedutores,
que lhes curassem as feridas,
que lhes falassem de flores,
que ao menos as ouvissem,
quando tremessem de amores...

Mulheres tantas mulheres,
como tantos são os homens.
não podem erguer os braços,
pois amordaçam e somem,
como se fossem só peças,
marcadas a ferro e fogo,
numa dança que as consome...

Ermínia gerou Opalina,
que gerou Lindaura,
que gerou Mariana,
que gerou Eulália,
que gerou Santa...

Cada qual com seu destino,
todas elas com seus medos.
Em cada uma, uma marca:
com a vida escorrendo,
pelo meio de seus dedos...

Lá se vai e lá se vem.
Está tudo consumado:
aos homens, tudo de bom,
às mulheres, no seu tom,
apenas o destinado...

Mas gerem e gerem suas filhas.
Ensinem mulher à mulher,
pois há uma força imensa
por dentro de cada uma,
que lhe dará o que quer…





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