Zeca Ferreira - Esteio do progresso
Luís Cesar Soares
Para seu povo:
Zeca Ferreira.
Na carta migratória:
Josef Von Schmidt…
Sim, alemão de pele clara,
Barbudo e sardento
Como um pintado,
Grandalhão de olhos azuis
E cabelos dourados!
Ainda na Alemanha,
Josef, recém-casado,
Encontrou a propaganda
Estampando vãs promessas…
Nelas, uma América colorida,
Repleta de papagaios e macacos,
Várzeas sem fim, mato virgem,
Pinheiros e angicos centenários,
Minas de ouro e prata
Feito tocas de tatu,
Tudo livre, verde, vasto e rico!
Acariciava a barba de profeta
Enquanto as palavras
Ecoavam sem fim…
No contraponto, a vida amarga
E a miséria dos dias;
Ele, a companheira
E outros conterrâneos,
Enfeitiçados, mergulharam
Nas ondas da utopia,
Singrando águas do Atlântico.
Na mala, poucos pertences,
Um punhado de esperança,
O terço para reforçar a Fé,
E o retrato da família para
Relembrar a força e a coragem,
Ademais da bagagem,
Os saberes do milenar ofício,
Para assar o pão incerto dos dias,
E levar por troco, a alcunha
Que virou identidade…
Zeca Ferreira… Ferreiro!
Aqui na Província de São Pedro,
Ganhou o mesmo rumo
D’outros irmãos imigrantes.
Em cortejo, vararam rio,
Picada e madrugada
Estancando numa clareira,
Nos arredores da fazenda
Arreião do meio,
Campos da Baronesa!
No pensamento, um sonho,
Nos pés a sede das raízes,
De quebrar jejum e ancorar destino.
Josef ainda era Josef,
E não entendeu
Nenhuma palavra,
Mas compreendeu os gestos
Do líder da comitiva…
De pronto, memorizou:
Seus matos…
Suas divisas…
Suas aguadas…
As terras, suas terras!
Nem bem derrearam
As bagagens e já se ouvia
A sinfonia dos machados,
E os pinheiros maduros,
Vencidos vinham abaixo,
E, uma a uma, as tábuas
Iam florescendo no chão
As casas crescendo
Junto ao milho novo
E as coivaras de feijão!
Por ali também nascia
Uma nova estrada,
Não somente
De pedras e terra,
Mas de progresso,
De Esteio e de Ferro,
De suor e picareta,
Erguidas por homens
De fibra e tutano!
Do povoado, companheiros
De viagem e sonhos
Se alistavam como voluntários
Nas frentes do governo
Pros lados da Feitoria…
Era o suor para abrir picadas
E cruzar dormentes,
Esteios para a nova estrada,
Por onde o trem de ferro
Sobre as rodas do progresso
Desfilaria entre apitos
E tufos de fumaça!
O trabalho enobrece o homem!
Josef sabia, mas não ia!
Josef preferiu ouvir
Sua intuição que murmurava:
Teus saberes são
Necessários aos irmãos,
Teu ofício é fundamental
Para germinar sementes!
Josef, antes, mãos pálidas,
Agora, negras,
De carvão e fuligem,
Calos, satisfação,
A barba sapecada,
Sorriso de fartura, alegria…
Na varanda feito oficina,
O sino da marreta
Reverberava noite e dia!
Josef seguiu por casa,
De varanda baixa
Onde o fole de couro
Beijava a forja; e o aço,
Nos dentes da tenaz,
Deitava sobre a bigorna!
A ciência no mergulho,
O tempo fracionado, exato,
A perícia no fogo e a fumaça
Em segredo “templado”!
Pro vizinho
Bateu um bico de arado…
Pro compadre, a encomenda:
Ferragens para carroça!
Para ele: um avental de couro,
Enquanto o brejo engolia a roça,
Numa terra que ficava de lado,
Esquecida, jazia, abandonada!
Seu suor já não era suficiente
E esquecido no oco do porongo
Dormia um punhado de sementes!
Quando o braço é resiliente
O sucesso sempre germina
E o alemão colhia outros frutos
Ali nascia um novo Esteio.
Ele lembrava um lobisomem
Lavado em suor, mudava o nome,
Antes Josef, agora Zeca!
Sua fama ganhava distância
E os colonos desciam a serra
Na busca d’um tal alemão,
Que de tanto malhar ferro,
Perdia também o sobrenome
Que se confundia
Entre Ferreiro e Ferreira!
Vinham de longe,
Buscar duas, três enxadas,
Pra desespero do inço,
Depois a foice para
Decapitar caraguatás,
Um facão pra cortar espinhos
Do branquilho e dos maricás,
E as unhas de gato,
Com as barbas de molho
Aguardavam sua vez.
Não, não se fazem mais
Machados como antigamente…
Mudaram os homens,
Mudaram as profissões,
O povoado cresceu,
Esteio está aqui!
A oficina resiste de pé,
Estampando despojos
E cicatrizes pelas paredes,
Nelas a fórmula do sucesso,
Dos velhos Esteios do Progresso!
Expedicionários, alemães, italianos,
Imigrantes, ferroviários…
Que viraram quadros, retratos,
E eternizaram um legado
“Templado” a fogo e suor,
A aço e a marretada!
Josef - Do hebraico, significa "Deus se
multiplicará". É um nome comum em várias
culturas.
Schmidt (ou outras variantes, como Schmitt) – É um dos sobrenomes mais comuns na Alemanha e também na região sul do Brasil. Tem origem na profissão do patriarca da família; vem do médio alemão smit ou baixo-médio alemão smet, Schmedt e Schmied, ferreiro. A versão inglesa é Smith; em italiano, Ferraro ou Ferrari. Há registros no Tirol, em 1349. No Brasil o sobrenome chegou no começo do século 19. Em Nova Friburgo, Rio de Janeiro depois no Rio Grande do Sul, no período entre 1824 e 1853 com a chegada de 118 imigrantes Schmi(d)t(t).
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schmidt
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