Vitor Lopes Ribeiro
Um dia me perguntaram
De onde veio o meu verso.
Respondi: Vem bem de perto,
Das estâncias, dos ranchitos,
Dos que encilham solitos
E vão ao campo assoviando
Quando o sol vem campereando
As barras de um novo dia.
Vem da carreta que rangia
Deixando linhas na estrada,
Pra uma tropa de cruzada,
Riscar de casco a poesia
Com berros por melodia
Para ecoar nos varzedos.
Bem daqui, donde a saudade
Se finda tomando um mate,
Quando o silêncio se parte
Para escutar um conselho,
Pois todo pai é um espelho
Que deixa um norte pro filho.
Bem daqui, donde o potrilho
Se forja nas “precisão”,
Onde o aperto de mão
Mostra a firmeza do amigo,
Donde a milonga é um abrigo
Nas horas de solidão.
E foi crescendo aos pouquitos
Nos fogões de acampamento,
Garantindo seu sustento
Nas voltas da recorrida,
Cantando vaca parida
E alguma outra extraviada...
Depois, ganhou madrugadas
Co’ a cordeona botoneira,
Gineteando uma vaneira
Num campo de duas notas,
De gastar sola de bota
Numa trova romanceira.
Assim, foi vindo o meu verso
Cruzando várzea e coxilha,
Dando “forma” pras tropilhas
E serviços pras mangueiras,
Gauchando à sua maneira,
Terrunho por atavismo...
Se acampou no telurismo
Desses recuerdos que planto,
E andejou mais um tanto
Pelos rastros do pampeiro,
E conheceu dos yuyeiros
As curas que vêm do campo!
Um dia me perguntaram
De onde veio o meu verso...
E, respondendo, confesso,
Trouxe dos pais dos meus pais,
Das sabenças ancestrais
Doutoras dos corredores,
Das taperas, paradores,
Do barro dos mananciais.
Meu verso, somos iguais,
Nascemos pra ser querência,
Estanciados na vivência
Que a pátria pampa ensina,
Pois ser gaúcho é a sina,
Que temos por referência.
Tirou o peso do estrivo
Quando apeou por aqui,
No rancho que eu construí
Quinchado de inspiração,
Onde a alma e o coração
Se juntam no mesmo espaço...
Feito uma armada de laço
Que busca aquele que berra
E, por campeiro, não erra
Nem cerra pela metade.
Pra dizer bem a verdade,
Meu verso veio da terra!
de
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